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Entrevista com a Profª Me Flávia de Macedo Cavallini



A pandemia de coronavírus (Covid-19) causou várias mudanças na rotina da população, pois a principal medida para prevenir a propagação do vírus é o isolamento social, o que pode causar alterações psicológicas. Pensar nessas mudanças, no perfil social e nos impactos psicológicos, têm sido um desafio para os profissionais da área da saúde.


Atualmente, a Mestre e Professora da Pós-Graduação em Saúde Pública e Pós-Graduação em Psicologia Junguiana, Flávia de Macedo Cavallini, vem enfrentando esse desafio, ela realiza o trabalho de artista plástica e usa a Arte como ferramenta terapêutica no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no município de Serra.


Pensando na conjectura que estamos vivendo, a Mestre e Professora Flávia de Macedo Cavallini, concedeu uma entrevista sobre o trabalho desempenhado por ela no CAPS.

Se você tem interesse pelos estudos acerca da saúde mental, não pode perder essa entrevista tão esclarecedora e enriquecedora.


O que é CAPS ad II e qual é o público alvo?


FLÁVIA A sigla CAPSad quer dizer Centro de Atenção Psicossocial para cuidados relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas. O II quer dizer que é um CAPS voltado para um município que possui uma população acima de 100 mil habitantes e que requer equipe e recursos materiais mais amplos. Os CAPS II possuem uma equipe formada por médicos (podendo ser um médico clínico e um psiquiatra), enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos, farmacêuticos, professores de música e de educação física ou outros educadores, artistas e/ou arteterapeutas, artesãos, terapeutas ocupacionais, técnicos administrativos, auxiliares de limpeza. O público alvo são os casos complexos de uso abusivo e/ou dependente de álcool e outras drogas, tendo em vista que as unidades de saúde da atenção primária também cuidam de casos que tenham transtornos leves ou moderados decorrentes do consumo de substâncias psicoativas.


Neste período de pandemia, as questões relacionadas à saúde mental estão bastante em voga, pensando na estrutura do CAPS ad II, quais mudanças e desafios foram percebidos?


FLÁVIA A demanda do CAPSad vem crescendo e se tornando ainda mais complexa, devido ao isolamento social durante o período da pandemia, agravando os casos de uso abusivo de álcool e outras drogas, ansiedade e depressão grave. O desemprego da população e a precarização dos serviços públicos também contribuem para o aprofundamento dos problemas de saúde mental. As equipes dos CAPS encontram-se muitas vezes reduzidas, com salários defasados e com condições ruins de trabalho. Neste momento específico da pandemia, estão sendo adotadas estratégias de atendimentos remotos, pois atividades em grupo foram temporariamente suspensas.


Quais são os procedimentos adotados para tratamento desses pacientes?


FLÁVIA O usuário do SUS, como é chamado o cidadão que procura os diversos dispositivos de saúde, como os CAPS, é acolhido pela equipe através de uma primeira escuta, de onde são retirados os devidos encaminhamentos. É feito, então, um projeto terapêutico singular, em que cada indivíduo recebe propostas de cuidado diferenciadas dentro dos recursos existentes no serviço, de acordo com suas necessidades, baseado no princípio de equidade do SUS em “ tratar desigualmente os desiguais”. Assim, um usuário pode receber um acompanhamento médico e psicológico individuais, outro pode fazer um acompanhamento semanal em grupo terapêutico, outro pode ganhar um projeto de atenção e cuidado intensivo, participando  de diversas oficinas, como arte, música e educação física, acompanhamento social, psicológico e médico, por exemplo.


Como a arte pode auxiliar no tratamento terapêutico?


FLÁVIA A arte dentro de um CAPS não é um “recurso auxiliar”, mas muitas vezes protagonista no processo de cuidado. A arte foi propulsora da reforma psiquiátrica no Brasil, basta lembrarmos o papel importantíssimo que tiveram Osório César, Arthur Bispo do Rosário, Antonin Artaud,Nise da Silveira, Almir Mavignier, Ismael Pedrosa, Lygia Clark, Hélio Oiticica, entre outros.  A presença do profissional de artes no CAPS  ̶  seja ele o artista plástico, o arte-educador, o arteterapeuta, o ator, o músico, o cineasta, o artesão  ̶   possui a potência de viabilizar projetos que ultrapassam a visão meramente  biomédica do ser humano, criando territórios existenciais complexos e mais abrangentes. Não existem receita nem técnica específica para isso, mas as propostas surgem a partir da relação entre o profissional e o público das oficinas, que são dinâmicas e mutáveis. Alguns públicos se interessam por bordados, outros por pinturas, outros por vídeos, outros por performances, teatro, história da arte. Além disso, as visitas a espaços culturais e artísticos, como museus e galerias de arte, são indispensáveis para as vivências ligadas à arte. O artista, assim como os demais profissionais, faz acolhimentos, participa de reuniões de equipes da saúde mental, fazendo discussões e avaliações de casos, não havendo nenhuma forma de hierarquia na equipe interdisciplinar que os coloque como subalternos a outro profissional ou a um campo de saber. Como o próprio  Nietzsche falou sobre o que se deve aprender com os artistas:


“De que meios dispomos para tornar as coisas mais belas, atraentes, desejáveis para nós, quando elas não o são? ¾ e eu acho que em si elas nunca o são! Aí temos algo a aprender com os médicos, quando eles, por exemplo, diluem o que é amargo ou acrescentam açúcar e vinho à mistura; ainda mais dos artistas, porém, que permanentemente se dedicam a tais invenções e artifícios. Afastarmo-nos das coisas até que não mais vejamos muita coisa delas e nosso olhar tenha de lhes juntar muita coisa para vê-la ainda ¾ ou ver as coisas de soslaio e como que em recorte ¾ ou dispô-las de forma tal que elas encubram parcialmente umas às outras e permitam somente vislumbres em perspectivas ¾ ou contemplá-las por um vidro colorido ou à luz do poente ¾  ou dotá-las de pele e superfície que não seja transparente: tudo isso devemos aprender com os artistas, e no restante ser mais sábios do que eles. Pois neles esta sutil capacidade termina, normalmente, onde termina a arte e começa a vida; nós, no entanto, queremos ser os poetas-autores de nossas vidas, principiando pelas coisas mínimas e cotidianas”

( NIETZSCHE, A Gaia Ciência,2012, p.179)

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